Eu vi

Biutiful

biutiful Biutiful e não Beautiful. Achei esquisito desde aí. Um filme mexicano. Divide as opiniões. Tem gente que adora. Tem gente que odeia. Eu, particularmente, fiquei meio na dúvida no início. O fato é que é um filme extremamente paradoxal. Contraditório. O filme se passa em Barcelona, especificamente, no submundo. O protagonista explora imigrantes chineses e africanos, porém, curiosamente, procura tratá-los de forma respeitosa e empática – no limite do possível. Isso já mostra a contradição e eterna luta interior em que vive Uxbal, o protagonista da história. Ele é cheio de dualidades. E nem parece um protagonista de verdade. Não tem as virtudes que deveria ter, não tem as atitudes que deveria ter.

Ele é uma pessoa que sobrevive através da ilegalidade. Dos imigrantes e da espiritualidade. Não bastassem todos os seus conflitos interiores, ele é alguém conectado com a morte. Uxbal é médium e faz disso um complemento da sua renda também. Ele sai totalmente dos trilhos da ética, e não é no plano imaterial que seria diferente. Ele cobra pelo intangível, inominado, por vezes, desacreditado até. Lucrava até mesmo em cima da dor das pessoas, das perdas humanas, da maior e irreversível viagem do ser humano: a morte.

Até que ele mesmo foi apresentado à sua própria morte. Estava com câncer em estágio terminal. Meses apenas de vida. E então, começam os questionamentos, as culpas emergindo. O medo. Mas como ele poderia partir? Se dele dependiam tantas coisas, tantas pessoas? Duas crianças, seus filhos. Sua mulher, digo, ex-mulher, bipolar. Sem estabilidade nenhuma. Emocional ou financeira.
biutiful1E eu nem pensei em torcer por alguma cura ou algo assim, pois desde o início, senti-me desenganada em relação a isso. A morte chegaria em breve. Sempre chega. Mas apesar de todos os aspectos desconcertados, ele era uma pessoa de boa índole.

Do jeito dele, procurava ajudar as pessoas, os imigrantes. O que não impediu uma tragédia de acontecer. Pelo contrário, a boa intenção transformou-se na causa principal da tragédia. E também do jeito dele, procurava criar bem os filhos. No sentido de não lhes deixar faltar nada. No sentido de lhes dar tudo o que ele podia, mesmo que nem sempre, fosse realmente o melhor. Ele amava os filhos à sua maneira. E a sua maneira era muito avariada, como se pode notar. Ele não tinha nada inteiro dentro de si mesmo. E também não conseguia partilhar nada que fosse completo ou sem avarias. Um sujeito quebrado de todas as formas que se pode imaginar.

biutiful_2010_f_001O cenário do filme, também não era nada convidativo. Sempre era enfatizado o mal-estar. O desconforto. O erro. A falta. E tinha algumas mensagens interessantes, como as mariposas acumulando-se de modo proporcional ao desenrolar da sua doença. A revoada de pássaros num momento marcante do filme – não quero estragar o filme, caso alguém se interesse em vê-lo, né? Mas se tem uma coisa que achei extraordinária foi a forma como se retratou a mediunidade. Nunca foi explorada abertamente, sempre de forma sutil. Sem sustos. Como se estivesse em segundo plano. Uma coisa inerente ao protagonista, (se é que ele não era mesmo um antagonista de si mesmo… e por vezes, achei que sim. Uma pessoa que tentava ser uma coisa, mas acabou sendo outra. Uma caricatura de si mesmo e por isso, angustiante) a mediunidade era algo comum, abordada de forma despretensiosa. Quase desimportante.

No fim, o que mais importava para ele era deixar tudo pronto para seus filhos continuarem depois de sua partida e não ser esquecido pelos filhos, como ele mesmo esqueceu do pai, da fisionomia do pai.

Enfim, um filme de muitas tragédias e dramas pessoais interligados por esse homem tão contraditório. Uma história que me prendeu, apesar de ter torcido secretamente para que acabasse logo, pois eu me senti sofrendo com eles. Inevitavelmente dolorosa. Mas a vida não é só colorida o tempo todo. A monocromia tem seu espaço também. E a vida imita a arte, ou a arte imita a vida, nem sei. E alguns aspectos da vida são muito bem retratados nesse filme. O problema é que nem sempre queremos retratá-los.

Eu gostei demais desse filme, me trouxe muitas reflexões e questionamentos. Eu tinha que escrever sobre ele, qualquer coisinha que fosse, porque ficou martelando na minha cabeça, mas só hoje tive tempo. E sei que preciso revê-lo.

Ficha Técnica do filme

Título: Biutiful

Ano de produção: 2010

Direção: Alejandro G. Iñárritu

Estreia: 21 de janeiro de 2011 (Brasil)

Duração: 147 minutos

Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos

Gênero: Drama

Países de origem: México /Espanha

*As imagens foram retiradas do Google.

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