Coisa Minha · Quotidiano

Preta, preta, pretinha

Li uma reportagem na BBC sobre uma africana que somente começou a considerar a cor da sua pele quando se mudou de seu país de origem para cá. Ela diz que lá onde morava ela era igual a todo mundo, mas aqui não. A matéria na íntegra, aqui.

Achei deveras interessante, uma vez que comigo aconteceu bem parecido. Eu nunca, na minha vida toda havia sequer considerado a questão de que alguém pudesse me tratar com preconceito ou de forma diferenciada por causa da minha aparência. E não, não sou uma autêntica negra. Tenho a pele morena, mas não muito escura, tenho o cabelo (e em grande quantidade, viu?) cacheado e nunca me importei com chapinhas e coisas que pudessem mudar a estrutura dos meus cachos. Nunca mesmo. Eles são o que são, desde sempre. Tóin óin óin…

A questão é que fui inocente em relação a isso por muito tempo. Sinceramente, eu nunca liguei muito para cor de pele de ninguém. Na minha família é tudo misturado mesmo. Meu pai, um autêntico caucasiano, pele muito clara, olhos claros, cabelos claros. Minha irmã, segue essa linha, muito embora, o cabelo dela seja veemente em apontar a negritude do sangue, pois apesar de claros, também são cacheados. Minha mãe é a que mais se aproxima da raça negra. Acho que aqui no Brasil, em especial, é difícil não ter uma misturada dessas. É bem comum.

Eu, para ser sincera, nunca achei que isso pudesse influenciar a minha vida de algum modo, até que… alguém muito próximo tinha uma brincadeira recorrente comigo – aparentemente inocente – ligada a essa coisa do cabelo e da pele, mas numa certa ocasião foi feito o mesmo comentário de forma depreciativa, não em relação a mim, mas direcionado a um desafeto dessa pessoa. E foi aí que caiu a minha ficha. Demorou, hein? Depois disso, comecei a entender muita coisa que antes eu não percebia.

E hoje eu vejo que muitas vezes fui alvo de preconceito. Em alguns casos, sutilmente. Outras vezes, disfarçado de brincadeiras. De qualquer modo, eu continuo sem ligar. Mas é impressionante como de repente eu comecei a perceber nas entrelinhas.

É uma pena e acho desnecessário. Penso que isso afeta mais gente do que deveria. As pessoas nunca estão satisfeitas com nada, e não é comigo que estariam também. É como já disse alguém: qualquer problema que você tiver comigo é seu (?!). Mas… brincadeiras à parte, não é que eu esteja aqui militando em relação ao preconceito racial ou nada do tipo, muito embora, talvez isso seja inevitável num texto como esse, mas acho que algumas pessoas têm uma mesquinharia intrínseca e esse tipo é verdadeiramente incapaz sequer de perceber isso, quanto mais de admitir. Esse tipo é aquele que diz que não tem preconceito, recrimina os “preconceituosos assumidos” e ainda solta palavras com significados ocultos… e tenho visto que esses são os piores. Esses são aqueles que nunca vão figurar no percentual de gente com preconceito. Eles são os “politicamente corretos”. Abundando probidade e talz…

Tem também, o preconceito do próprio negro, eu mesma já vi muita gente assim. Claro que tudo isso depois do meu extraordinário insight… Ah! E tem também os melindres, os mimimis. Tem, viu? Agora, tem que ser tudo pisando em ovos, porque as pessoas fazem uma tempestade num copo d’água e depois do advento da internet e suas redes sociais “formadoras de opinião”, vira logo uma super postagem, uma nova ofensa, um “vou te processar” (o novo “vou dizer a minha mãe”). E muitas vezes, eu vejo que perde-se a essência. Existem coisas que merecem sim ser questionadas e ser até mesmo punidas, mas não é tudo. Às vezes é irrelevante demais. Uma bobagem. Termina vulgarizando e perdendo o crédito… mas isso já é outro assunto…

Reconheço, porém, que gente “inconsequente” como eu, não é muito comum pelas ruas da vida, porque grande parte precisa muito se sentir melhor do que alguém. E não digo isso porque quero destacar-me como pessoa exemplar, de modo algum, eu tenho cá meus defeitos, muitos deles, inúmeros, mas entre eles não está esse do preconceito, nem de raça, nem de classe social, nem de credo, nem de nada. Eu simplesmente não me importo. E também não discuto política, cada um tem sua opinião. Não vejo com bons olhos, pessoas que tentam mudar a opinião das outras em detrimento da sua própria, como se só houvesse aquela verdade na vida, no mundo.

Gente muito exasperada com essas coisas deveria mesmo cuidar para não adquirir uma úlcera, pois se até eu tenho gastrite, imagine quem liga pra isso, um perigo!

Sei que dia 20 foi o dia da Consciência Negra e que talvez isso me tenha influenciado, mas o fato é que no que depender de mim vou continuar sendo a “moreninha do cabelão” por muito tempo ainda. E não me importo mesmo. Não vou processar ninguém por bulling, não dessa vez… Pronto, disse.

 

 

 

 

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